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Ritoca Bomboca

Ritoca Bomboca

22
Jan19

Querida Avó,

Espero que estejas bem.

Desde há uns dias para cá que a tua imagem me vem à memória. Assim, sem mais, nem porquê. Vejo a tua cara. De repente e sem contar.

Não sei onde estás, nem sei como é. Sei que te imagino bem, ao pé do avô Gaspar e de vez em quando com os meus Vozinhos. A minha Vozinha talvez ande a varrer o chão, ou a lavar a loiça com um pano, como sempre a vi fazer. Pede-lhe que faça frango assado, era mesmo bom. Ou então batatas fritas com chouriço e ovo estrelado, também era.

Espero que estejam bem aí, em cima, ou em baixo. Não sei.

Sei que gostava de te abraçar. De voltar a ver-te.

Sei que és a minha mulher modelo. Mesmo com diferenças de gerações. Mesmo com pensamentos mais ou menos antiquados. Mas na fibra, foste sempre a melhor. Aliás, até na forma como decidiste ir embora, foste a melhor. Sem dor. Como tantos gostavam. Tu conseguiste.

Acho profundamente dececionante as nossas pessoas morrerem. Acho que não devias morrer.

Não sei o que é perder um marido, como a avó soube. Mesmo com mais de 50 anos juntos, foste a mais forte. A rocha. O pilar. A comandante deste navio com tantos tripulantes.

Sempre soubeste comandar.

Como sempre soubeste amar e aceitar os outros, mesmo que diferentes.

Não julgavas. Aceitavas, porque era família.

Nisso, sou como tu. Aceito. É sangue.

Tenho muitas coisas para contar. Mas acho que não preciso. Porque acho que sabes tudo o que vivo.

Gostava de voltar a ver-te, no banco do salão da Tia Júlia, ou no banco da cozinha, de pijama à espera que o meu pai voltasse de Angola.

Isto tudo, só para te dizer: tenho muitas saudades!